quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Ainda se pode ter fé!!

Sim, ainda é possível acreditar na humanidade!!! Sabe por que?

Porque existem pessoas como o Professor Mousinho, de quem tive a honra de ser aluna, que não se calam diante dos absurdos cotidianos. Posto aqui o texto que recebi dele.


PODRES PODERES: CONVERSE MAIS, DOM ALDO!

Há algum tempo ouço histórias sobre o arcebispo Dom Aldo Pagotto que me causam estranheza. Narrativas de que haveria rezado missa de desagravo em apoio a um político paraibano acusado de corrupção e preso pela Polícia Federal; que teria fechado um hospital de apoio a crianças aidéticas por preconceito contra aidéticos e homossexuais; que pregaria contra uso da camisinha, se alinhando às correntes mais retrógradas da Igreja Católica (a mesma na qual tenho orgulho de ser batizado); que apoiaria políticos acusados de fraude eleitoral. Enfim, não acreditava (e ainda não acredito) que esses dados confiram. E até pensava com meus botões: isso não é um bispo, é uma lenda urbana! Ainda mais na Paraíba, com a honrosa tradição de tantos anos de belíssima atuação de Dom José Maria Pires e também de Dom Marcelo.
Pois, na última quarta-feira de cinzas, infelizmente parte dessa lenda negativa se confirmou aos meus olhos, num canal de tv local. Vi o bispo Pagotto tentar defender o ex-governador cassado por acusação de crime eleitoral. Até aí tudo bem, poderíamos dizer que é um direito que lhe cabe. Mas a qualquer análise semiótica básica, ou a qualquer visada a olho nu, mesmo a mais desprevenida, saltava aos olhos que o bispo não concluía uma frase com integridade, arrodeava, engasgava, não conseguia olhar para a câmera, nem para o repórter. E se dizia consternado com o procedimento (histórico) da justiça eleitoral. Isso sem apresentar nenhum argumento com mínimo de solidez para embasar sua opinião.
Espantado ainda com a fala escorregadia do arcebispo, dei um pulo do sofá à noite, morto de vergonha e indignação, ao ver a nossa Paraíba em rede nacional, no Jornal Nacional, com a informação da suspensão do dedicado e aguerrido padre Luiz Couto de suas funções sacerdotais, pelo fato de ter discutido democraticamente a possibilidade de fim do celibato clerical, a necessária luta (política e cristã) contra a discriminação de homossexuais e – ah, isso eu até acho graça --, ter se mostrado a favor do uso da camisinha. Três bandeiras de luta super-justas, passíveis de serem condenadas apenas por pessoas muito obscurantistas.
A condenação dos homossexuais é nazista, a posição fechada pelo celibato uma total falta de perspectiva histórica e a condenação da defesa do uso da camisinha um gesto criminoso do senhor arcebispo. Sou professor universitário e me orgulho de começar o semestre com meus alunos e alunas feras, incentivando a que “plastifiquem” e vivam a vida boa que Deus nos deu. Começo brincando e falo sério, seríssimo, sobre uma questão de saúde grave como a Aids, que precariza as condições de vida e envolve ainda risco de morte, apesar de todos os avanços da medicina.
Nos anos oitenta, uma canção de Caetano Veloso tinha versos que se construíam como uma oração em proteção aos “índios e padres e bichas negros e mulheres e adolescentes”, ou seja às minorias sociais, expostas à discriminação e violência. Deus queira que o padre Pagotto não tenha tido ainda noção de que gestos discriminatórios como os dele dão munição e podem servir de argumento e planta baixa para criminosos que no mundo inteiro, neste momento, estão agredindo e matando essas minorias, por serem minorias. Matando simbolicamente e frequentemente fisicamente também.
O deputado e padre Luiz Couto tem dedicado a sua vida e também posto a sua própria vida em risco, numa carreira parlamentar e num sacerdócio religioso voltados à luta contra inúmeras formas de opressão e ao mesmo tempo de combate de rara coragem contra o crime organizado. A verdade é que o atual arcebispo da Paraíba, com essa atitude de punição ao deputado e padre Luiz Couto, prova por A mais B que não tem dimensão intelectual nem humana para ocupar o cargo que ocupa. E que também não tem, nunca teve, estatura para ocupar a cadeira que um dia já foi de Dom José e Dom Marcelo. Em tempo: leio neste mesmo Correio o presidente Lula distribuiu pessoalmente camisinhas no carnaval. Frequentemente a humanidade caminha para frente.

Luiz Antonio Mousinho
Professor do Departamento de Comunicação e da pós-graduação em Letras da UFPB